Eu - "revelaste-te enfim! uma menina, hein? e por favor, como será o inferno? fogo, ranger de dentes, cheiro a carne queimada?'
Diabo - "a repetição daquilo que és."
Eu - "mas, antes de mais nada, quem te diz que eu repetirei e, em segundo lugar, que repetir será para mim um tormento infernal?"
D. - "pelo contrário, não será tormento nenhum. estarás bem e, dentro dos limites da humanidade comum, serás até feliz."
Eu - "mas porque dizes então que será o inferno?"
D. - "o inferno não é sofrer mais; é repetir o já feito e, através da repetição..."
Eu - "...continuar o mesmo"
D. - "não, pelo contrário, tornares-te outro."
Eu - "outro? não entendo."
D. - "mas é bastante simples: cometes um erro, reconheces tê-lo cometido, és sempre tu próprio; mas se não o reconheces, cometes outro erro idêntico, és um outro."
Eu - "um outro, de que maneira?"
D. - "sem teres sequer a recordação do homem que eras antes de repetires o erro."
Eu - "ah, é por isso que há pouco cantarolavas: não tens coragem, não tens coragem."
D. - "até que enfim que percebes."
Eu - "mas o que é que querias dizer ao certo?"
D. - "queria dizer que tu me invocaste, que me propuseste a venda do que sabes, se eu, em troca, te fizer recomeçar a vida no ponto preciso em que te aconteceu o que te aconteceu. eu vim e respondo-te: posso aceitar, mas de uma única maneira: fazendo-te ser um outro através da repetição."
Eu - "mas, em primeiro lugar, terás que descobrir argumentos convincentes para me fazeres repetir."
D. - "com isso não te preocupes: sou um mestre a descobrir argumentos."
Eu - "a repetição. há pouco estava a olhar pela janela e vi pela primeira vez aquela lápide, ali. diz que repetir é diabólico."
D. - "pois, não precisavas do latim para entender isso; um momento de reflexão teria bastado."
Eu - "admitamos que eu repita. não será possível que reconheça pela segunda vez que me enganei?"
D. - "não, isso não, seria demasiado cómodo. e eu? com que ficava na mão? um pedaço de papel?"
Eu - "não estou de acordo com esse pacto, vai-te embora, depois voltamos a falar."
D. - "invocaste-me dizendo que não aguentavas ser mais aquilo que és, declaravas-te pronto a ser outro, qualquer outro; e agora dizes-me, em vez de aceitares o que te ofereço: depois falamos"
Eu - "sim, gostava de ser outro, sim, mas com a recordação de ter sido o que sou."
D. - "isso é coisa que não posso fazer; além do mais, que me ficaria na algibeira?"
Eu - "então, uma vez mais, vai-te embora."
D. - "voltarei; até breve."
Alberto Moravia in "Contos Eróticos"
Ou então fica só mais um bocadinho...
Wednesday, January 14, 2009
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5 comments:
AC DC
mas a cena louca aqui é a de que a partir do momento em que transgrides pela segunda vez, já não o consideras uma transgressão, logo passas a ser outro, outra pessoa...
a ideia de que são os nossos comportamentos que vão moldando a nossa personalidade (e não o contrário) é muito fixe...
ou seja, eu já sou assim como sou, porque é que eu continuo a achar que o que eu faço está errado. Eu não caio sempre no mesmo erro. Para mim já não é um erro.
O outro dia a falar com um gajo ele dizia-me: "Eu já me conformei com o facto de ser um tekkie... Vou tentar ser mais cool, vou tentar ser mais descontradio, para quê? Eu sou assim mesmo, o melhor é tentar aprender a viver com isso..."
Nós repetimos comportamentos sem fazer nenhum juízo moral. Esse foi feito da primeira vez que nos comportamos daquela forma. Assim sendo, a repetição de um comportamento existente é muito mais fácil do que a adopção de novos comportamentos. E assim se cai numa espiral de3 destruição...
LINDO... where will all this lead us from here???
Por acaso não foi assim que percebi.
No exemplo do teu amigo: ele é techie. Com uma alma que não é de techie. Continuará a fazer coisas techie, vai repetir comportamentos techie.haverá uma altura em que o espírito deixará de ser inconformado, que o comportamento ocupa o lugar da personalidade como dizes (sendo que na maior parte das pessoas este conflito personalidade-comportamento nem acontece). Enquanto ele se perguntar “porque sou techie, será que não há mais, estou a errar neste caminho, quero mudar” está a reconhecer o erro de ser techie – mas não vai adoptar um comportamento novo, vai continuar a ser techie e às tantas vai deixar de fazer juízo moral, vai entrar na repetição e vai passar a passar a ser outra pessoa – um techie conformado. Sendo que até vai ser feliz. Mas esse é o verdadeiro inferno.
É uma forma de ver a coisa...
É mais para a carneirada mole: Life is hell and you don’t even know it!
AAUUEEUUUAA!!! Cool!!! Moravia dá-lhe. Encontrei finalmente Os indiferentes! Eager to start!
PS: nem de propósito vou começar a ver o Le Mépris (godard é capaz de compensar a falta de gin tónico) que acabei de ver é uma adaptação de um romance do Moravia com o mesmo nome. Spooooky.
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