

Paulo Kussy em três actos...
"O operário de hoje trabalha todos os dias da sua vida, faz as mesmas tarefas. Esse destino não é menos absurdo, mas é trágico quando apenas em raros momentos ele se torna consciente".
Albert Camus – O Mito de Sísifo
Acto I - A Tragédia
Que melhor maneira de falar deste último trabalho de Kussy do que remetê-lo para a essência do que retrata, que não é mais do que o teatro da vida humana na sua insignificância e na sua grandeza, espelhando assim a mitologia Grega. Sísifo, o mortal que desafiou-os Deuses, por mais do que uma vez, viu a sua vida no Tártaro ser confinada a empurrar uma bola de mármore encosta arriba de uma montanha, sendo que sempre que chegava ao topo, devido à sua força voltaria a rolar para o sopé da mesma, confinando Sísifo à insignificância da vida mortal, rotineira e repetitiva.
Esta fútil condenação está patente nos quadros de Kussy, no homem reduzido à sua fragilidade, despido da sua rigidez e da sua força, amorfo e disforme. Mas é também neste estado que o homem encontra a sua grandeza, tornando-se criativo na repetição e na monotonia. O Homem destinado ao sofrimento, encontra nele forma de se superar e de se regenerar, sendo assim, esta exposição uma alegoria à conquista e à superação pessoal.
Acto II – A Luta
O provocante delírio que nos propõe Paulo Kussy nesta sua mais recente mostra, transporta-nos para um mundo repleto de contradições alimentado pela filosofia do absurdo dos nossos tempos modernos. Desprovido de referências a que já nos habituamos, o seu trabalho universal é posto em causa por uma preocupação muito quotidiana, a condição do homem enquanto agente de uma sociedade em transformação em luta e em busca de sobrevivência e, em última análise, de superação.
Aqui vemos que, a prótese da máquina é o homem e não o contrário. A figura central, embora descentralizada é a máquina, a máquina perfeita, total e final na qual o homem balança na sua inconsistência, manipulado, conduzido e transfigurado. Transfiguração esta que nos faz pensar em Bacon e em como procurava destacar as profundidades da psique humana nos retratos que pintava. Kussy pinta a profundidade da pessoa, reduzida ao seu espírito, despindo a da sua pele e remetendo a para a sua essência, frágil e quase animal. O pendor erótico está presente em todos os seus quadros, como se de uma procura pela sobrevivência se tratasse, o Homem ao serviço da máquina constantemente e inconscientemente desafiando o seu destino de submissão, procurando a rebelião e a sobrevivência, ou seja, a vitória.
Acto III – A Vitória
Os cenários pitorescos sobre os quais se passam todas estas representações remetem para o lado mais geométrico da Escola de Kussy. Professor de Geometria, obcecado com ângulos e formas, procura responder a todas as questões que se lhe colocam através de uma equação matemática. Esta tradução dos mais profundos sentimentos humanos em fórmula representa apenas mais uma feliz contradição da sua obra, fazendo lembrar as fórmulas de Almada Negreiros, a explicação dos Painéis de São Vicente e os Painéis da Gare Maritima de Alcântara, em que a essência humana não é reduzida à formulação mas sim aumentada pela sua racionalidade e simplicidade quase asséptica. A geometria para Kussy perde a sua frieza quando preenchida de cor, cores essas que, podendo ser pensadas como cores de banda desenhada, para quem conhece o autor percebe que vêm do seu fascínio pelas ilustrações de Frank H. Netter e dos seus inúmeros catálogos de anatomia humana. Cores fortes e sólidas completamente delimitadas pelo traço, estabelecendo fronteiras claras como num storyboard, transportam a obra para o fantástico, conferindo-lhe assim o seu estatuto mitológico e teatral, remetendo-nos outra vez para Sísifo, o grande desafiador dos deuses e o mais inconformado dos mortais.
Andrew Schnitzer da Silva
Luanda, Março de 2012


3 comments:
Grande Andrew!! Sou suspeito, mas tenho que dizer que o teu texto está fantástico e é uma excelente sinópse para o filme que terá estreia no dia 10 de Maio de 2012 ! "Dispamos todos a Pele" !! Até breve! Paulo Kussy - http://paulokussypintura.blogspot.com - www.paulokussy.com
Bom!!
Bom!!
É preciso imaginar Paulo Kussy feliz.
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