Monday, September 28, 2009

Exposição "Ngola Mirrors"

Perguntam-me o que ando a fazer...

A produzir uma exposição do Mário Tendinha aqui no Instituto Camões em Luanda.


Acompanha um texto do Filipe Zau que faz a introdução à exposição:




SOB O SIGNO DO TCHITUNDO-HULO
Por: Filipe Zau

Quiseram circunstâncias de épocas passadas – tempos de há pouco mais de meio século – que, Mário Tendinha, descendente de uma família oriunda de portugueses algarvios e gente do norte de África, fixada, desde 1890, na actual cidade do Namibe, ali nascesse sob a bênção da fragrância da maresia atlântica e do vento leste, que sopra árido do deserto.
Desde cedo se deixou envolver pelas actividades piscatórias e pelo modus vivendi das populações pastoris da região. Após ter completado 18 anos de idade, começou a desenhar e a deixar-se aquecer pelo sol das gravuras rupestres do Morro Sagrado do Tchitundo-Hulo, lá, em Capolopopo, onde existem pastores kuvale, cujas mulheres, com os seus turbantes de pele de carneiro, promovem a arquitectura dos oganda.
A arte de Mário Tendinha é influenciada por um paradigma de sensibilidade, que submete a racionalidade figurativa à razão das emoções, dando, assim, lugar à imaginação, que, como um guelengue em disparada pelas areias do deserto, se expressa, no caso presente, em desenhos a tinta da china sobre papel branco.
Em “Ngolamirrors” os impulsos do seu subconsciente são ideograficamente representados sob a influência de obras de grandes mestres surrealistas, que lhe vão servindo de suporte: Picasso, Dali, Miró, Ernst, Klee…
Do alto do andaime, propositadamente, montado para instalação, (nosso privilegiado observatório social), o verso plácido do contexto do deserto em total dicotomia com o quotidiano luandense em efervescência.
Mário Tendinha é, sem dúvida, um observador atento, que nos permite mergulhar na leitura da sina de uma Angola em acelerada transformação, onde, face a um contexto surrealista, só as roupas penduradas no estendal parecem atentas ao curso dos acontecimentos reflectidos nos espelhos, sob a forma de humor, crítica ou satisfação.

Luanda, 29 de Junho de 2009
E alguns dos quadros:

Velhotes do beiral
Na corda a secar



No comments: